O Alienista: o livro que parece sobre loucura… mas é sobre poder
Tem livros que parecem simples na superfície, mas estão o tempo todo te provocando sem você perceber. O Alienista, de Machado de Assis, é exatamente esse tipo de obra. À primeira vista, você está diante de uma história sobre um médico obcecado em entender a loucura. Só que, conforme a leitura avança, fica cada vez mais claro que o livro não está interessado em explicar a mente humana.
O que ele realmente faz é muito mais desconfortável: ele questiona quem tem o poder de definir o que é normal. E quando você percebe isso, a leitura muda completamente de tom.
A obsessão pela ciência e o apagamento da vida pessoal
Simão Bacamarte é um médico respeitado, formado na Europa, que retorna a Itaguaí com um único objetivo: estudar a mente humana. Tudo na vida dele gira em torno dessa missão, e isso fica evidente desde o início. O casamento, por exemplo, não nasce de afeto ou desejo, mas de um cálculo quase científico, baseado na possibilidade de gerar filhos saudáveis. Esses filhos nunca vêm, mas isso não parece afetá-lo de verdade, porque a vida pessoal é secundária. O que importa é a ciência.
É dentro dessa lógica que surge a Casa Verde, um asilo onde ele começa a internar aqueles que considera loucos. No início, o critério parece razoável, limitado a casos mais evidentes, o que faz com que o leitor até concorde com suas decisões. Só que esse equilíbrio dura pouco.
Quando o critério deixa de existir
A mudança acontece de forma gradual, quase imperceptível, e talvez seja isso que torna tudo mais inquietante. Quando a esposa de Bacamarte retorna de uma viagem ao Rio de Janeiro, encontra uma cidade completamente transformada. A Casa Verde está cheia, e não apenas de casos extremos, mas de pessoas comuns, gente que antes levava uma vida absolutamente normal, mas que passou a ser considerada inadequada por apresentar pequenas excentricidades.
Nesse ponto, o problema deixa de ser o comportamento das pessoas e passa a ser o critério utilizado para julgá-las. E esse critério não é fixo. Ele muda constantemente, se ajusta às novas teorias de Bacamarte, criando uma sensação de instabilidade permanente.
O leitor começa a perceber que não existe mais um padrão confiável, apenas a vontade de quem está no controle.
O momento em que a ciência vira instrumento de poder
É aqui que o livro ganha outra dimensão. A população começa a reagir, surgem revoltas e tentativas de questionar a autoridade do médico, mas ninguém consegue enfrentá-lo de verdade. E isso acontece porque Bacamarte sempre se apoia em um discurso científico.
Esse detalhe é central para entender a crítica de Machado de Assis. Quando um discurso ganha legitimidade e deixa de ser questionado, ele se transforma em autoridade absoluta. A ciência, que deveria ser um caminho para o conhecimento, passa a funcionar como mecanismo de controle. E, nesse cenário, ninguém mais está seguro. Qualquer pessoa pode ser considerada louca, dependendo da teoria vigente.
O paradoxo que sustenta toda a obra
O ponto mais icônico do livro acontece quando Bacamarte reformula completamente sua teoria. Ele passa a acreditar que os verdadeiramente normais são, na verdade, raros, e que o equilíbrio absoluto pode ser um sinal de anormalidade. Pessoas racionais demais, controladas demais, equilibradas demais passam a ser vistas como suspeitas. O livro mergulha em um paradoxo completo, porque aquilo que antes era considerado ideal passa a ser interpretado como desvio. Essa inversão leva à conclusão mais absurda – e, ao mesmo tempo, mais brilhante – da obra: o próprio Bacamarte seria o único louco. E, coerente com sua lógica, ele decide se internar. Esse desfecho não apenas fecha a história, mas expõe de forma definitiva o absurdo de todo o sistema que ele construiu.
A ironia como estrutura invisível
Nada disso funcionaria sem a ironia, que é o verdadeiro motor do livro. O narrador mantém um tom aparentemente sério, lógico e científico, mas está o tempo todo desmontando o próprio discurso que apresenta. Essa camada pode passar despercebida para leitores menos atentos, o que faz com que a história pareça apenas estranha ou até confusa. Mas, na prática, Machado de Assis está construindo uma crítica sofisticada à ciência, ao autoritarismo e à própria ideia de normalidade. E ele faz isso sem explicar nada diretamente, confiando que o leitor será capaz de perceber as contradições ao longo do texto.
A experiência de leitura (e suas dificuldades)
Apesar de toda a genialidade da proposta, a experiência de leitura não é simples. O linguajar é antigo, carregado de construções que já não fazem parte do uso cotidiano, e isso impacta diretamente o ritmo. Em vários momentos, surge a necessidade de reler trechos para compreender exatamente o que está sendo dito, o que quebra a fluidez da leitura.
No meu caso, essa dificuldade foi ainda maior porque consumi o livro em formato de audiolivro. Houve momentos em que eu percebia que tinha escutado o trecho inteiro, mas não tinha absorvido o conteúdo, o que me obrigava a voltar e prestar mais atenção. Isso transforma a leitura em algo mais exigente, especialmente para quem não está acostumado com textos clássicos.
Vale a pena ler O Alienista?
Minha avaliação para O Alienista é 3/5. É um livro curto, com uma ideia extremamente forte e uma crítica que continua atual, mas que exige paciência. Não é uma leitura fluida, e isso pode afastar leitores mais casuais. Ainda assim, vale a pena pela proposta. Porque, no fim, O Alienista não é um livro sobre loucura. É um livro sobre quem decide o que é loucura. E, acima de tudo, é uma reflexão sobre poder, autoridade e os riscos de aceitar qualquer discurso sem questionamento.
Ficha técnica do livro
- Título: O Alienista
- Autor: Machado de Assis
- Gênero: Conto / Sátira / Clássico da literatura brasileira
- Publicação original: Folhetim
- Editora: Via Leitura
- Ano da edição: 2016
- Número de páginas: 80
- Idioma: Português
- ISBN-13: 978-8567097299
Nota editorial: este artigo foi originalmente publicado em 5 de maio de 2026 e atualizado pela última vez em 5 de maio de 2026 para refletir mudanças recentes e novas informações verificadas.
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