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5 protagonistas literários moralmente duvidosos

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A grande literatura raramente se sustenta apenas em heróis exemplares. Muitas vezes, são personagens ambíguos, movidos por vaidade, obsessão, ambição ou frieza emocional, que conduzem as narrativas mais memoráveis. Eles cometem crimes, manipulam pessoas, atravessam limites éticos e ainda assim permanecem fascinantes. O leitor acompanha seus pensamentos, entende suas motivações e, em certos momentos, até compartilha de suas justificativas. Essa tensão é parte essencial da experiência literária.

A seguir, cinco protagonistas que colocam a moralidade em zona cinzenta e transformam o desconforto em potência narrativa.

Tom Ripley em O Talentoso Ripley

Tom Ripley, criado por Patricia Highsmith em O Talentoso Ripley, é um dos personagens mais perturbadores do século XX justamente por sua elegância. Jovem americano vivendo na Europa, ele deseja pertencer a um mundo de luxo e sofisticação que não lhe pertence. Sua inteligência social é impressionante. Ele observa, imita, absorve trejeitos, vozes e hábitos com naturalidade quase artística. Quando percebe que a única maneira de sustentar a vida que ambiciona envolve fraude e assassinato, não demonstra conflito moral profundo. O que surge é medo de ser descoberto, não culpa.

Ripley opera dentro de uma lógica própria. Ele sente prazer na estabilidade conquistada após o caos que provoca. A narrativa nos coloca dentro de sua mente e acompanha sua ansiedade, sua paranoia e seu talento em construir versões alternativas da realidade. O desconforto surge porque ele é metódico, calculista e surpreendentemente racional. Sua imoralidade é estratégica.

Hannibal Lecter em O Silêncio dos Inocentes

Hannibal Lecter, criação de Thomas Harris, combina erudição, sensibilidade estética e brutalidade extrema. Psiquiatra brilhante, leitor refinado e conhecedor de música e arte, ele também é um assassino canibal. Sua presença domina qualquer cena. Ele entende as fraquezas humanas com precisão clínica e manipula pessoas com poucas palavras.

O que torna Lecter literariamente fascinante é sua coerência interna. Ele age segundo um código pessoal que mistura desprezo pela vulgaridade e prazer no controle absoluto. Sua violência é apresentada como expressão de uma personalidade profundamente estruturada. O leitor experimenta uma sensação ambígua ao acompanhar seus diálogos. Existe horror, mas também admiração pela inteligência e pela clareza com que ele enxerga os outros personagens.

Raskólnikov em Crime e Castigo

Raskólnikov, protagonista de Crime e Castigo, de Fiódor Dostoiévski, comete um assassinato convencido de que algumas pessoas possuem o direito de ultrapassar normas morais em nome de um propósito maior. Ele constrói uma teoria intelectual que legitima o crime como ferramenta histórica. Acredita pertencer ao grupo dos homens extraordinários que podem agir acima da lei comum.

Após o ato, o romance mergulha em seu estado psicológico fragmentado. Febre, delírio, paranoia e culpa corroem sua convicção inicial. O conflito moral se transforma em sofrimento existencial. Raskólnikov não encontra grandeza em si mesmo, encontra fraqueza e angústia. A narrativa acompanha a lenta desintegração de uma ideia que não suporta o peso da realidade. A dúvida moral se instala no choque entre teoria e experiência concreta.

Heathcliff em O Morro dos Ventos Uivantes

Heathcliff, personagem central de O Morro dos Ventos Uivantes, de Emily Brontë, é movido por ressentimento e paixão absoluta. Órfão acolhido pela família Earnshaw, ele cresce sob humilhações e rejeição social. Seu amor por Catherine se mistura a orgulho ferido e desejo de vingança. Quando retorna rico e poderoso, sua trajetória se transforma em um projeto de destruição calculada.

Heathcliff manipula casamentos, explora fragilidades e perpetua ciclos de sofrimento que atravessam gerações. Sua dor inicial não justifica as escolhas posteriores, mas ajuda a compreender a intensidade de sua obsessão. Ele ama de forma possessiva, deseja controle e encontra satisfação na ruína daqueles que o desprezaram. O romance constrói uma figura sombria, cuja humanidade aparece em breves lampejos, logo sufocados pelo rancor. A moralidade de Heathcliff permanece instável, marcada por uma combinação de vulnerabilidade e crueldade.

Meursault em O Estrangeiro

Meursault, protagonista de O Estrangeiro, de Albert Camus, ocupa um lugar singular nessa lista. Ele comete um homicídio quase por circunstância, sob o sol sufocante da Argélia. O que realmente o diferencia é sua postura diante da vida. Ele não demonstra emoção convencional no funeral da mãe, não dramatiza seus relacionamentos e não tenta se encaixar nas expectativas sociais.

Durante o julgamento, sua indiferença pesa tanto quanto o crime. A sociedade parece mais incomodada com sua falta de arrependimento performático do que com o ato em si. Meursault aceita o absurdo da existência com frieza e lucidez. Sua moralidade é questionada porque ele recusa as convenções emocionais que sustentam o convívio social.

Conclusão

Esses protagonistas permanecem relevantes porque expõem fissuras humanas que preferimos não encarar. Ambição desmedida, desejo de poder, vaidade intelectual, obsessão amorosa, indiferença existencial. A literatura oferece espaço para explorar essas sombras com profundidade psicológica. Ao acompanhar esses personagens, o leitor não apenas observa comportamentos moralmente questionáveis, mas confronta a complexidade da própria condição humana.

Nota editorial: este artigo foi originalmente publicado em 27 de fevereiro de 2026 e atualizado pela última vez em 27 de fevereiro de 2026 para refletir mudanças recentes e novas informações verificadas.

Sobre o Autor

Rafael Hertel
Rafael Hertel

Rafael Hertel é um jornalista, criador e o crítico literário por trás do site Os Melhores Livros. Apaixonado por leitura desde jovem, sua jornada o levou a explorar o vasto mundo literário com um toque único. Com mais de 4.5 milhões de leitores desde sua criação, o OML é reconhecido como o principal site de resenhas de livros do Brasil. Cada post é uma porta de entrada para descobertas emocionantes no fascinante reino dos livros.

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